sexta-feira, 11 de setembro de 2009


O bule antigo
cada cômoda de ferrugem flexível
o bule amigo
café de todas as horas desesperadas
cozinha psicografada
hoje sou eu que povou cada pedaço cerâmico sentimento
bule antigo
entranhada gordura
que guarda todas as culpas
amanhecidas fugas
deslizes sonolentos
barulhento fogo a cozer os nervos
a velhice dos armários a expiar os ventos
todas as vezes que a mesma porta se abriu
nunca mais.
o bule antigo
o café amargo de todos os dias
na mesma hora
controlando os mais variados tremores
o suor frio das previsões
cada camada de parede amada
o bule amigo
hoje através da água
conversei com o sebo
guardado entre a pia e o passado
guardei o bule
ainda não aprendi a tomar café.

adélia coelho julho de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Caranguejo estrangeiro
lama tinta do teu caos
querendo nascendo cuspindo!
preso pela culpa dos outros
a coroa do jesus culpado
a coroa do jesus alheio
perdão!perdão!
"Foi o vento de agosto!'
disse o rasta vendendo pulseirinha
Jesus!benfeitor!apaziguador dos transeuntes
gira em torno do toco do mundo
gira amarrado numa cela
Lama de cristo tem poder!!
derrama teu pão sobre o corpo imóvel
escorre o sangue dos outros
no teu pênis envergonhado
as cordas te soltam
no dia da abolição
CHICO Science te ressucita
sai do teu corpo
estátua de palha
pára de pedir desculpa
caranguejo mórbido
lama de cristo tem poder!!
esfrega teus olhos nesse manto manchado de caos.


Adélia Flor
-Sobre intervenção de Biagio na estátua de Chico-

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Minha boca parece pôdre
e meus braços infestados
de bactérias mortais
meu colo parece inexato
minhas pernas curtas
e meu ventre mórbido
todo meu amor parece pouco.
meus cães continuam trancados e com fome
tudo que sou continua livre e com fome
Minha boca te parece apetitosa?
e em meus braços cabem teus sonhos?
onde finda teu mundo e começa o nosso?
o que sobre do corpo quando ele não é mais alimento?
o que resta do amor quando descobrimos que ele nunca foi verdadeiro sustento?
tire sua falta de vontade de cima de mim.chamo para perto
e te afasto sem nexo
agora cansada,desconverso
vou deságuar no branco
tinta misericórdia eu peço!
vontade do outro eu impesso.
dor profunda consagra este meu verso.


Adélia Coelho

A luneta/a luneta
toque-a segure-a bem
consegue vê?
cada traço da ponte percebe a saída
sentes?consegues sentir?
a luneta está ali a espera que alguém a manuseie
ela é apenas instrumento
cada sinal da estrada entende a pedida
a luneta está aqui
a noite,espera-te
a lua,espera-te
as janelas afoitas
querem ver-te pular seus olhos sob o céu e ver-me...
ver-me
atrapalho-te?
a luneta sou eu
a espera que o outro veja a lua
através de minhas lentes.


Adélia Coelho


O rabisco desaparece contra o peito
e o papel quer reinventar
chamo com cílios pra perto
afasto com o desejo mais incerto
o rabisco desenrola-se ao longe
imperceptível demora
não sei que tempo é esse
a espera da tinta?
a espera de outros olhos?
teimo,seguro as últimas linhas
de uma poesia que nunca foi minha
evoco,quebro,rasgo
disfarço os meus pés
dançando a esperança
os olhos fogem ao lado
as mãos desfalecem no próprio colo
a boca,cansada sangra
e o coração que desiste, apaga de vez
o desenho que só ele queria ver.

Adélia Coelho



Dentro de minha barriga
coleções de fetos mumificados
múmias lunares
pequeninos órfãos
Ainda não sabem que morrerei.
Não belos espermatozóides,
não sois imortais!
Espirro os óvulos
despejo certezas
mergulho identidades
meu parto é flagelo
meus filhos são inverdades
herdei do sol o medo
e no escuro brinco que tenho olhos
dentro do meu breu existe sonho
dentro da caixa listrada do sexo
há mais que substância orgânica
há desprezo humano.
Dentro de minha barriga
os tonéis de esperança deságuam nos pés
bolsa d água incandescente
meus pequenos indigentes
meus inversos soterrados
dentro do devaneio vi um gôso
era estrela cadente
era longe e era certo
infinitamente rápido e livre
era meu filho homem
atravessando meu juiz
era meu filho homem passando sobre meus espasmos
o único suspiro silencia,outrora em prece
repouso agora,certa que meus filhos voam.
para dentro...
para dentro!


Adélia Coelho




Quero arrancar as raízes das minhas pantorrilhas adoecidas
cruzar as veias,desviando o rio
tornar as correntes soltas
destrinchar o trinco dos mudos
quero empalhar as buzinas do ontem
e atravessar as lamparinas do medo
escurecer cada fio de perna que me atravessa
quero conceder o goso alheio/diverso
jamais comedido universo
quero arrancar as raizes de minhas pantorrilhas adoecidas
meus pêlos sujos arrastados pelo caminho
atados/emaranhados
noutro corpo qualquer
meu sangue lilás quer vinho
meu corpo azul quer saber adormecer
meus dedos brancos pensam que sabem dançar
e minha cratera sedenta
quer se recolonizar
atmosferas suspensas
todos os joelhos choram
ajoelhando suas culpas sobre os terços
meus olhos querem sargaços amorais
meus seios querem famintos adestrados
sarnentos homens que não percebem o vulcão ao lado.

Adélia Coelho

Quem sou eu

Minha foto
Eu vou,atrevida,pisando nos relógios sento-me nos relógios sou a bailarina da caixa de música que dança em cima dos ponteiros e ilumina mesmo sem querer o outro lado das batidas do tempo... Flô